Doutoranda da Universidade Federal do Pará (UFPA) realiza defesa intercontinental no Instituto Politécnico de Beja (Portugal) e apresenta propostas para fortalecer a produção sustentável do principal produto da sociobiodiversidade amazônica
A pesquisadora paraense Aline Batista que é Servidora do Instituto Federal do Pará há 10 anos, alcançou um importante marco em sua trajetória acadêmica ao defender, em Portugal, sua tese de doutorado sobre a Cadeia Global do Açaí, resultado de uma parceria internacional entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), consolidando uma cooperação científica que aproxima Brasil e Portugal na produção de conhecimento voltado ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.
A defesa da doutoranda pertencente ao PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GESTÃO DE RECURSOS NATURAIS E DESENVOLVIMENTO LOCAL NA AMAZÔNIA (NUMA/UFPA), orientada pelo Prof. Dr. Christian Nunes da Silva e Profª. Dra. Maria João Barata de Carvalho, representa não apenas uma conquista pessoal, mas também um avanço científico para a Amazônia, ao reunir pesquisa aplicada, cooperação internacional e propostas concretas para o fortalecimento da principal cadeia produtiva da sociobiodiversidade amazônica.
Intitulada "CADEIA GLOBAL DO AÇAÍ E RISCOS SOCIOAMBIENTAIS LOCAIS", a pesquisa analisou como o crescimento acelerado da demanda mundial pelo fruto tem transformado a realidade das comunidades produtoras, especialmente no município de Abaetetuba, um dos maiores polos produtores de açaí do estado do Pará.
Ao longo do doutorado, Aline investigou os impactos da internacionalização do açaí sobre os sistemas produtivos tradicionais, identificando mudanças na organização do trabalho, na segurança alimentar, na conservação ambiental e nas relações comerciais estabelecidas ao longo da cadeia global de valor.

Da Amazônia para o mundo
Nos últimos anos, o açaí deixou de ser um alimento tradicional consumido pelas populações amazônicas para tornar-se um dos produtos naturais mais valorizados do mercado internacional. O crescimento das exportações ampliou as oportunidades econômicas, mas também trouxe novos desafios relacionados à sustentabilidade, à governança e à distribuição dos benefícios gerados pela cadeia produtiva.
Segundo a pesquisadora, um dos principais resultados da tese demonstra que a velocidade de internacionalização do açaí não foi acompanhada pelo fortalecimento das estruturas locais de governança.
"A Amazônia produz um alimento que conquistou o mundo, mas os territórios produtores ainda enfrentam desafios relacionados à organização social, acesso aos mercados, mudanças climáticas e valorização dos conhecimentos tradicionais. Era necessário compreender essa realidade para propor soluções construídas junto às comunidades e instituições", destaca Aline Batista.
Pesquisa construída entre Brasil e Portugal
O período de mobilidade acadêmica realizado no Instituto Politécnico de Beja foi decisivo para ampliar a dimensão internacional da pesquisa.
Durante o intercâmbio, o qual recebeu bolsa da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para realizá-lo, Aline mapeou a rota de exportação do açaí produzido em Abaetetuba-PA até o mercado europeu, identificando empresas importadoras, canais de distribuição e tendências de consumo em Portugal. Também desenvolveu, juntamente com a equipe do Instituto Politécnico de Beja, estudos sobre tecnologias de agregação de valor ao fruto, incluindo a liofilização da polpa de açaí e análises da conservação de suas propriedades nutricionais após o processamento, demonstrando o potencial dessa tecnologia para ampliar a competitividade internacional do produto amazônico.
A experiência permitiu aproximar o conhecimento produzido na Amazônia das demandas do mercado europeu, fortalecendo a cooperação científica entre Brasil e Portugal.
Pesquisa com impacto social
Um dos diferenciais da tese foi a forte participação de produtores rurais, extrativistas, comunidades ribeirinhas e representantes de instituições públicas na construção dos resultados.
Além das entrevistas realizadas em Abaetetuba, a pesquisadora participou de assembleias e encontros técnicos que reuniram diferentes atores da cadeia produtiva para discutir soluções voltadas ao fortalecimento do setor.
Entre as principais demandas identificadas destacam-se:
- fortalecimento da segurança dos produtores rurais e extrativistas;
- ampliação do crédito rural específico para o açaí;
- incentivo ao cooperativismo;
- valorização do manejo tradicional;
- certificação de origem e rastreabilidade do produto;
- formação técnica especializada para trabalhadores da cadeia;
- criação de mecanismos permanentes de governança.

Produtos técnicos para orientar políticas públicas
Como contribuição prática da pesquisa, a tese apresenta propostas voltadas ao aperfeiçoamento da gestão da cadeia produtiva, entre elas:
- Plano de Formação Técnica da Cadeia do Açaí;
- Diretrizes para um Comitê Municipal da Cadeia do Açaí;
- recomendações para fortalecimento das políticas públicas locais;
- estratégias de adaptação às mudanças climáticas;
- mecanismos para certificação, rastreabilidade e agregação de valor ao produto.
As propostas foram elaboradas a partir das necessidades identificadas junto aos produtores e instituições envolvidas na pesquisa.
Ciência voltada ao desenvolvimento da Amazônia
Mais do que compreender a dinâmica econômica do açaí, a tese busca contribuir para que a internacionalização do fruto ocorra de forma socialmente justa, ambientalmente responsável e economicamente inclusiva.
Ao integrar análises sobre cadeias globais de valor, desenvolvimento territorial, segurança alimentar, mudanças climáticas e governança, o estudo oferece subsídios para gestores públicos, pesquisadores e organizações que atuam no fortalecimento da bioeconomia amazônica.
A defesa da tese simboliza também o fortalecimento da cooperação científica internacional entre a UFPA e o Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), demonstrando como a pesquisa pode aproximar territórios, produzir conhecimento aplicado e gerar soluções para desafios globais a partir da realidade amazônica.
"Defender esta tese em Portugal representa muito mais do que a conclusão de um doutorado. É a demonstração de que a ciência produzida na Amazônia tem relevância internacional e pode contribuir para construir políticas públicas e estratégias de desenvolvimento que valorizem os territórios, os produtores e a floresta."
A trajetória de Aline Batista reafirma o papel das instituições públicas de ensino, pesquisa e inovação na formação de profissionais comprometidos com os desafios da Amazônia. Como servidora do IFPA há uma década, ela alia ensino, pesquisa e extensão à produção de conhecimento científico com impacto social, fortalecendo a internacionalização da ciência amazônica e contribuindo para que o açaí seja reconhecido não apenas como um produto de exportação, mas como um patrimônio econômico, ambiental e cultural da região.